Quaresma, tempo de conversão

| Quaresma, tempo de conversão
Queridos irmãos e irmãs, estamos vivenciando este tempo quaresmal que se iniciou com a quarta-feira de cinzas. Como já é do nosso conhecimento, a Quaresma é o caminho que fazemos para a Páscoa, para o dia da ressurreição do Senhor, quando Ele nos faz ver que a vida venceu a morte de forma definitiva. A quaresma é sobretudo um tempo de caminhada longa dentro de um processo de morte e ressurreição, onde se vê que não se sobressai a derrota, entretanto a vitória pascal. É tempo de conversão que se dá por meio da oração, da penitência e do jejum, e, com base no testemunho de Cristo, também temos o convite para fazermos a experiência do deserto, da oração, do jejum e da esmola como forma de conversão para vivermos o projeto de Deus em nossas vidas.

Deus nos chama a sermos santos, e viver a santidade é submeter-se a sacrifícios, requer ascese. Existem vários modos de podermos nos aproximar de Deus e de nos convertermos, e Santo Agostinho propõe um retorno interior a si próprio, sair das realidades do cotidiano e dessas distorções que o mundo nos apresenta, para que encontremos Deus o autor da vida que se faz conhecer na Pessoa de seu Filho Jesus Cristo. Mas, para isso, é necessário que uma pessoa se despoje de si para escutar a Deus, e uma das formas de nos despojarmos de nós mesmos é por meio da ajuda da oração, da fé que nos põe no caminho de Deus.

Viver o tempo da quaresma é viver a mesma experiência de Jesus no deserto, e é também o tempo de fazermos a experiência de vencer o inimigo, o demônio, que é o autor da morte e se apresenta de vários modos, como também se apresentou a Jesus no deserto para tentá-lo. No sacrifício do deserto nos purificamos, fazemos a experiência de Deus e com Deus. É fazer a experiência da vida e opção pela vida. Na Didaqué, texto criado para a orientação dos primeiros cristãos, fica bem claro como no livro do Gênesis que Deus não nos criou para a morte. O caminho da morte é o mau cheio de maldições: a violência, homicídios, adultérios, paixões desordenadas, roubos, idolatrias, falsos testemunhos, hipocrisias, orgulho, ciúmes. Tudo isso é consequência da falta do temor de Deus.

Na quaresma somos todos convidados a redescobrirmos esses valores espirituais que nos interpelam a uma conversão verdadeira e autêntica, que só pode se dar quando fazemos esta experiência de Deus. Quais são essas motivações para buscarmos viver segundo essa proposta? A Palavra de Deus que nos orienta por meio do próprio Deus que se fez Homem na pessoa de seu Filho, o Cristo. E a base de todo o seu testemunho é em primeiro plano o Amor. Na carta de São Paulo aos Gálatas (5,22,23), que, com certeza é um dos Apóstolos de maior referência e testemunha fiel do Cristo Ressuscitado, ele nos fala de bondade, longaminidade, fidelidade, amor, paz, mansidão e auto domínio, e tudo isso é o que? Fruto do Espírito. É o Espirito que recebemos no batismo, fonte de salvação que opera isso em nós.

A experiência do deserto é para Jesus Cristo aquilo que deveria ser também para nós: superação de todos os desejos do inimigo que nos tenta como tentou o Senhor, querendo desfazer o projeto de Deus. No livro do Gênesis, sobre a criação o inimigo, conseguiu enganar o homem, mas não venceu. Em Cristo, sua resistência deu-nos a vitória, e é um testemunho e exemplo de que o nosso caminho com Deus se faz quando escutamos sua voz.

No Salmo 94 nos é dito: “hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor”, esse ‘hoje’ não está estabelecido simplesmente na questão do tempo como limite de vinte e quatro horas, mas essa é uma referência tanto ao tempo quaresmal, como a todos os momentos presentes de nossa vida ao longo de nossa caminhada, que já se deu com o nosso batismo, onde somos reabilitados no Cristo. Além deste Salmo citado acima, certamente um outro que nos propõe algo extraordinário para a vivência quaresmal é o Salmo 50, que nos leva à reflexão sobre a nossa fragilidade e pequenez diante de Deus.

Por isso, caríssimos irmãos e irmãs, convido-vos a valorizarmos essa proposta que o Senhor nos faz neste tempo, refletindo e buscando o crescimento e a vida de santidade, não obstante nossas fragilidades. Estamos vivendo um momento bastante crítico com esta problemática do coronavírus, mas cessemos com o terrorismo e com as falsas notícias, sejamos confiantes e rezemos acreditando em Deus. Nossa fé é dom gratuito do Senhor para conosco, colaboremos fazendo nossa parte. Na verdade, para ser sincero, isto não é a peste negra, não estamos vivendo a realidade da peste de Albert Camus. Que Deus nos proteja de todos os males e perigos.

Desejo a todos uma boa quaresma e que todos nos comprometamos com o progresso de vida e de santidade.

Deus vos abençoe!

Águas Claras/DF, 13 de março de 2020.

Pe. Dr. Edvaldo Batalha.

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